
PENSO, LOGO EXISTO?
- necs2016

- 13 de jul. de 2024
- 4 min de leitura
Descartes afirma com este aforisma que a maior distinção que nos marca é o pensamento. Segundo este grande pensador, somos dotados de pensamento por sermos seres de alma, onde naquilo que nos anima, reside a fonte da razão. Tal afirmação não se firma como valor de verdade apenas na força do pensamento contido na filosofia cartesiana, mas principalmente como fundamento de nossa cultura ocidental, regendo nossas ideias e dando significado a uma forma de existência. É a partir destes fundamentos que constituímos a distância entre o objetivo e o que passa a se constituir como subjetivo, a todo um ordenamento de dualidades, as quais inclusive podem ser postas dinamicamente, ou dialeticamente, constituindo toda uma visão de mundo pautada por dualidades e seus antagonismos. A toda esta cultura, atribui-se o fundamento racionalista que se agrega em nossa experiência e passa a delimitá-la, já que o pensamento passa a ser correlacionado diretamente à razão. Mas, afinal de contas, o que é realmente o pensamento?
Por incrível que pareça, um físico explica melhor e de forma mais coerente o que realmente acontece. Um dos nomes mais eminentes da Física Quântica, David Bohm, revoluciona pela coerência de seu pensamento e a revolução que provoca nos avanços que suas ideias contribuem para reformular nossa visão sobre a realidade. Em sua obra O pensamento como um sistema ele nos indica qual o real problema que temos quando tentamos desvendar a realidade que nos circunda. O pensamento é um sistema corporal de materialidade mais sutil e ação sofisticada, funcionando basicamente nos moldes que o nosso organismo é programado em sua disposição genética. É produto de toda a ação eletroquímica realizada no cérebro e que se estende do sistema nervoso central para o autônomo, o qual passa a distribuir os impulsos para outras áreas do corpo, os sistemas orgânicos e as áreas periféricas. Quando distribuídos pelo corpo, transforma-se em sentimento, este sendo as emoções e sensações do corpo já traduzidas pelo pensamento.
O mais revolucionário é que na obra de Bohm é afirmado que o pensamento é apenas um sistema desenvolvido e estabelecido pelo corpo da espécie humana para nos fazer “ver” a realidade da qual ele faz parte, ou seja, todo o ordenamento que é explícito aos sentidos organizados por nossa sensorialidade. Quando é referido que nos serve para ver a realidade, é porque ele apenas nos proporciona poder perceber esse nível da realidade através do corpo, integralizados nele, como um painel de imagens e sensorialidade e que, portanto, o que pensamos não nos diz realmente quem somos. O pensamento reagiria no corpo por ordenamento dos reflexos e condicionamentos que são próprios do funcionamento lógico dentro do que já é estabelecido pela biologia tradicional desde que Pavlov fundou o conceito de condicionamento. O pensamento apenas reage por ordem do que tem programado por circuito reflexo, acionando as redes neurais dos condicionamentos reforçados de experiências anteriores para situações que são identificadas sensorialmente como “semelhantes”, e assim aciona todo o mecanismo nervoso eletroquímico para que a reação se adeque àquele momento. Nada disso podemos referir necessariamente como uma ação escolhida, intencionada pelo agente que define nossa condição, sendo esse processo avaliado apenas por identificação de uma necessidade ou de uma contingência. O que é necessário é visto como absoluto e que é preciso ser realizado em um mecanismo parecido com a reação condicionada que conceituamos como “vício”, em que por sua vez o que é contingente geralmente sofre a interferência “daquele” que percebe, relativizando essa necessidade que seria sentida como indispensável. O desejo, mais próximo do instinto, seria com isso necessário, sendo a percepção sobre ele interferida por providência da vontade, que pode contingenciá-lo, e assim, agenciá-lo, torna-lo algo que possa nos parecer provido de sentido.
O pensamento, portanto, a nada realmente define. São imagens holográficas, de acordo com a teoria holográfica da realidade universal desenvolvida pela física quântica. À essas imagens associamos outras, de cunho pictográfico primitivamente, depois as ortografias, as quais chamamos de linguagem. Alfabetizar-se é associar os símbolos das imagens ortográficas, cardinais, ordinais e pictográficas (desenhos) e referi-las ao outro indivíduo para podermos nos comunicar, sendo esta linguagem processada em seu cérebro pelo seu pensamento como imagens associadas às imagens em seu próprio movimento. A questão é que esse sistema de pensamento não é necessariamente interior ao cérebro, pois esse movimento que acontece é sistemático, por isso nos liga necessariamente por via do que pensamos. A linguagem é apenas o acordo para nos referir que pensemos nas mesmas imagens. A realidade não é aquilo que percebemos diretamente dela, mas o que nos apropriamos por ordem da propriocepção do pensamento. Nós formamos a realidade quando pensamos nela porque o pensamento a projeta em imagem, sendo o cérebro um órgão projetor, o hardware que produz um software de projeção tridimensional, dessa forma conformando o que denominamos de “realidade”. Por isso David Bohm nos afirma que a realidade também é pensamento. Também porque há algo a mais.
O que sabemos de nós por via do pensamento é apenas aquilo que lembramos por via da memória (rememoramos), esta sendo um arquivo de condicionamentos acionados por ordem reflexa, o que no fim das contas, nada diz sobre quem realmente nós somos. Toda fonte de sofrimento está ligado a esse não saber apenas porque partimos de um conhecimento sobre a realidade com base em sistemas de pensamento que estabelecemos como cultura ancestral de pensamentos daqueles que habitaram essa realidade em um espaço/tempo que denominamos de passado. O pensamento na ordem explícita é somente passível de explicar, ele pode indicar o funcionamento do seu corpo e pode indicar o que é a realidade conformando-a para você poder percebê-la. No fim disso, somos sencientes de nossa própria condição se ficamos apenas no nível de perceber o pensamento, pois não nos vemos ordenando a forma que pensamos, mas sim acreditamos que somos o que pensamos! Isso nos leva a confundir reações com escolhas, responsabilidades com culpa. O fim dessa linha de movimento é sempre sofrimento. O mandamento persistente de Sócrates e da entrada do templo de Delphos na Grécia antiga ainda permanece como crucial para a condição humana: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás a realidade dos deuses e do universo”.







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