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POR QUE A PSICOLOGIA É UMA DAS MAIS IMPORTANTES CIÊNCIAS E PROFISSÕES DO SÉCULO XXI?

  • Foto do escritor: necs2016
    necs2016
  • 6 de jul. de 2024
  • 6 min de leitura

Vivemos em tempos de desconcertante paradoxo. Gerações se confundem e aparentemente convivem como se fossem grupos pertencentes à mesma realidade, mesmo que o avô não use a Internet e o filho não viva mais sem a conectividade tão característica deste século. Na filosofia alemã há o termo “Zeitgeist” para exprimir o que seria “O espírito do tempo”, algo como a identidade, a definição do que seria o âmago de distinção de uma época. Qual época nós vivemos? Como podemos defini-la? Há a possibilidade de se definir o tempo em que vivemos, mesmo o tempo como medida física, nem mesmo ele, não sendo mais parâmetro fixo? Como ter um porto seguro em tempos de total relatividade, não só do tempo, mas de valores, moralidade, visões de mundo?

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman viveu ainda estes tempos e o definiu com uma “modernidade líquida”, pois tudo se desmancha no ar, nada tem mais solidez. “Quando se patina sobre uma fina camada de gelo, a segurança está na velocidade” diz um dos prólogos de seus livros. Por mais discutível que seja a visão de Bauman, o seu sucesso parece estar mais ligado a identificação de um movimento característico de nossos tempos do que a definição própria desta época. A velocidade aumentou, seja de locomoção, da informação ou da mudança de nossos desejos e multiplicidade de nossas insatisfações. Vivemos tempos de pluralidade, de relativismos quanto aos valores, à moralidade, aos gêneros, mas ainda nos pautamos pelo materialismo, acreditando que a realidade é aquilo que o corpo pode sentir em seu egocentrismo. O antropocentrismo que nos caracteriza como civilização já nos demonstra que não há muito de sagrado ainda restante na condição de “ser” humano, nos tornamos o centro do universo e passamos a vasculhá-lo como se ele fosse uma extensão de nossas pretensões. O individualismo é reinante, mas não como valor libertário e pragmático, e sim como centro, início e fim de “minha” visão de mundo.

Esses seriam traços da modernidade ainda herdada em nós, a fragmentação de nosso pensamento e a racionalização de tudo que não pode ser medido por instrumentos concebidos por lógicas já ultrapassadas. Medimos o mundo a partir da medida do que pensamos, e assim estabelecemos crenças de que a realidade se adequa ao que acreditamos que ela seja. Estes tempos não são mais do século XXI, não há modernidade para este século, isso é resquício de uma humanidade que ainda pensa como se pensava no século XX e porque ainda estamos sobrevivendo até aqui. O século XXI já demonstra na jovialidade daqueles que exercem sua criatividade que não há mais espaço para incoerências, o conhecimento que se expande e os saberes que se reordenam demandam de forma clara e contundente que o nosso pensamento se ordene de forma mais elevada em complexidade, para assim podermos viver em plenitude.

A busca da felicidade é uma herança moderna, de tempos em que essa utopia só gerava a sua inerente resultante, o sofrimento, pois se a felicidade nunca se alcança, vivemos o mal-estar perene do fracasso. Todas as teorias de séculos passados trazem isso em suas entranhas. Esse mal-estar gera todo tipo de inadequação e incoerência ainda permanente em nossos tempos, pois todos que ainda vivem neste século, em sua grande maioria nasceram e se formaram nos séculos passados em cultura. Não há mais tradições e do conservadorismo inerente à aristocracias que já foram enterradas, só sobraram a soberba, vaidade e ilusão de que ainda se preserva algo que nos diferencie, seja na determinância do social, seja nas ideologias que permeiam àqueles que acreditam em suas identidades ( ou subversões destas) como definidoras de si. Essa cultura é a do mal-estar, da gestão da morte e da perversão do que efetivamente nos torna humanos. Sofremos por nunca sabermos “o que” ou “quem” realmente somos.

A psicologia se torna então uma referência primordial neste século como ciência e profissão por ser uma ciência voltada para a Vida e uma profissão voltada para o cuidado, qualidade de vida e bem-estar. Saúde, como muito bem coloca Humberto Maturana, é poiesis, ou seja, é produção própria, singular, uma constante autopoiesis. Ser singular é o que nos distingue, não ser diferente, uma realidade a parte e própria, mas ser único. Não se trata de uma unidade matematizada e independente como indivíduo que se torna repositório de teorias e desejos, mas uma singularidade conexa com a totalidade, autônoma e que livremente arbitra em sua vontade como uma potência de ser. Potência é criatividade, a possibilidade de se desdobrar de variados modos, ordens e movimentos e produzir vida em unicidade. Unicidade porque se é único no Todo, juntos e entrelaçados, em rede ou informativamente pela capacidade que temos de saber cada vez mais e influenciar as mudanças do que chamamos realidade. 

Já diz um provérbio chinês “o corpo é um ótimo servo, mas um péssimo mestre”. Não é o corpo, o cérebro ou nosso nome que nos define, não somos apenas sujeitos contidos no corpo. Somos singularidades ordenadoras da realidade e o nosso corpo é o nosso instrumento, somos implicados nele por sermos nele, mas o que nos distingue, nossa unicidade, não é parte ou consequência de seu funcionamento, pois é o que proporciona vida e a continuidade de seu metabolismo. A Consciência é o princípio dessa singularidade que se estende ao corpo, energia primordial consubstanciada e geneticamente convertida. Não somos plenamente conscientes e nem inconscientes, mas sencientes porque nos iludimos com o pensamento, este sendo uma programação própria do cérebro, ou seja, o cérebro é o hardware e o pensamento é o software. É apenas uma ferramenta que nos auxilia a “ver” a realidade material, como um sistema de computador lhe proporciona utilizá-lo e acessar a internet, por exemplo. O pensamento é um sistema hologramático (holomovimento) e não nos define, é apenas cognição, processos neurais integrados e programados geneticamente. Mas como então ultrapassá-lo, reordená-lo, elevá-lo em complexidade? Precisamos mudar nossas concepções sobre uma série de conceitos psicológicos, como mente, inteligência e o que é necessariamente a percepção, pois somente por uma clareza de uma percepção ordenadamente inteligente podemos acessar a consciência própria de nossa singularidade e reordenar criativamente o que o pensamento não define, pois não se trata somente de entender, mas sim de compreender para saber.

Uma ciência com um teor tão revolucionário quanto a Psicologia nunca se adequou à velha ordem científica devido à experiência humana não ser passível de reducionismo, a existência humana não pode ser fragmentada e o sofrimento é uma consequência inevitável de não sabermos e dignificarmos o movimento próprio que é a totalidade de viver. Na gestão da morte que determina nossos tempos, o mal-estar é dominante e determina suas vias de apropriação das concepções sobre viver em dualidade com o morrer, contamina nossos pensamentos com paradoxos antagônicos, dialéticos, ideológicos e vivemos condicionados pelas possibilidades materiais limitadas pelas circunstâncias e contingências que o corpo nos apresenta sensorialmente. Ser autocentrado desta forma é se deixar levar por instintos, desejos, programações genéticas, desconhecer a si mesmo e acreditar que o corpo lhe identifica, seu nome o define e sua história é o que foi possível realizar nessas circunstâncias e contingências dessa materialidade. No século XXI já se apresenta a nova ordem, em um mundo globalizado, conectado informativamente e de facilidades que confortam a existência, mas nos demanda uma razão para viver.


Isso nos coloca novamente em nosso lugar devido, somos criadores nesta ordem de realidade e temos a liberdade que somente podemos exercer de forma singular, única em totalidade com todos e tudo, radical em sua condição fundamental de livre arbítrio. Já conseguimos explicar muito, o que ainda falta se trata de um reordenamento ético de nos implicarmos em nossa existência singular para produzirmos uma ética e uma moral que nos dignifique em nossa percepção de podermos saber, de podermos ter acesso à uma consciência de ser. Perceber não se trata mais de ver com os olhos, de pensar com a cabeça, mas sim de ver o mundo concebendo o universo, pensar ordenando as ideias com a inteligência e o movimento de nossas vontades. A psicologia agora se volta para o seu real objetivo, tratar de nossas singularidades, dignificar a existência, criar sentidos e saberes para a Vida e nos levar ao cuidado de nós mesmos. Assim teremos plenitude, seremos criativos e compassivos, exerceremos dignamente nossa liberdade e nos responsabilizaremos na radicalidade que somente uma complexa evolução pode nos trazer, o equilíbrio necessário para nos pacificarmos. Dessa forma a felicidade não é mais objetivo, a prudência se torna a bússola que coordena o caminho, a serenidade é o compasso para a harmonia e a responsabilidade realiza-se como natural consequência e mandamento do ser, o qual tem a liberdade implicada na co-criação de sua realidade existencial sempre avançando em alinhamento com o conhecimento da Totalidade Universal.

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